Uma vez estava conversando com a minha amiga Natalia e ela me perguntou como comecei a escrever poesia. Respondi que quando ficava entediado tinha vontade de escrever. Ela então me disse:
- Se sentia vontade de escrever, então é porque você já era um escritor, eu nunca teria feito isso.
Fiquei um tempo pensando no que ela me disse, pois antes achava que todos sentissem essa vontade de rabiscar algo.
Pouco depois, ao ver um homem morrer na rua, senti esse desejo novamente.
O homem que andava pela rua
Quando o homem
que andava pela rua
caiu e morreu,
não lhe dei a mão.
Não o abracei,
não rezei por ele,
nem tentei, inultilmente, ajudá-lo.
Quando o homem
caiu e morreu,
passei apressado ao seu lado
e numa pequena banca
comprei um lápis.
Com o lápis,
escrevi este poema.
Um poema
que não fala de heróis,
de poetas audazes,
ou de nobres ideais.
Mas lembra o meu companheiro,
desconhecido,
que caminhava pela rua
e está morto no chão.
Sérgio Medeiros
quarta-feira, 17 de março de 2010
quarta-feira, 10 de março de 2010
Poema do não saber
Não sei se bebo,
se te escrevo,
ou leio um livro
e me adormeço.
Não sei se logo
a chuva cai,
ou se essa nuvem
só se distrai.
Não sei se volto
durante o inverno,
ou se outro tempo
é o tempo certo.
Não sei se pinto
o seu nariz,
ou se cubro teus lábios
com as cores do meu giz.
Sérgio Medeiros
se te escrevo,
ou leio um livro
e me adormeço.
Não sei se logo
a chuva cai,
ou se essa nuvem
só se distrai.
Não sei se volto
durante o inverno,
ou se outro tempo
é o tempo certo.
Não sei se pinto
o seu nariz,
ou se cubro teus lábios
com as cores do meu giz.
Sérgio Medeiros
quarta-feira, 3 de março de 2010
Nesses dias de abril
Nesses dias
de abril
em que faz frio
e os homens
guardam-se em casa,
é difícil
arrumar abrigo.
É difícil
arrumar amigo,
mulher
e qualquer pessoa
pra se distrair.
Nesses dias
de abril
em que os homens
guardam-se em casa,
é difícil não ler livros
e não fazer versos.
Nesses dias,
de abril,
é difícil não beber,
não sentir a cabeça explodir
e não acordar desanimado.
Nesses dias
de abril,
anda difícil viver.
Sérgio Medeiros
de abril
em que faz frio
e os homens
guardam-se em casa,
é difícil
arrumar abrigo.
É difícil
arrumar amigo,
mulher
e qualquer pessoa
pra se distrair.
Nesses dias
de abril
em que os homens
guardam-se em casa,
é difícil não ler livros
e não fazer versos.
Nesses dias,
de abril,
é difícil não beber,
não sentir a cabeça explodir
e não acordar desanimado.
Nesses dias
de abril,
anda difícil viver.
Sérgio Medeiros
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Uma mão procura a outra
Uma mão,
procura a outra
para atravessar a rua.
A outra,
não procura,
e se esconde.
Os corpos,
quem sabe, livres,
quem sabe, solitários,
atravessam,
já um pouco distantes,
a rua.
Sérgio Medeiros
procura a outra
para atravessar a rua.
A outra,
não procura,
e se esconde.
Os corpos,
quem sabe, livres,
quem sabe, solitários,
atravessam,
já um pouco distantes,
a rua.
Sérgio Medeiros
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Uma partida pela saudade de voltar
Eu quero seguir
para uma pedra alta,
uma praia sem ondas,
uma floresta de árvores silenciosas.
Eu quero fugir
para longe dos passos
e desses dias
onde tudo é só cansaço.
Eu quero me unir
ao desejo,
quase satisfeito,
que dorme para não arrefecer.
Eu quero ir
e deixar a mesa posta,
pois se parto
é pela saudade de voltar.
Sérgio Medeiros
para uma pedra alta,
uma praia sem ondas,
uma floresta de árvores silenciosas.
Eu quero fugir
para longe dos passos
e desses dias
onde tudo é só cansaço.
Eu quero me unir
ao desejo,
quase satisfeito,
que dorme para não arrefecer.
Eu quero ir
e deixar a mesa posta,
pois se parto
é pela saudade de voltar.
Sérgio Medeiros
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Muito pouco pra se dividir
A mãe não sabe,
mas apareceu um moço,
querendo aparentar bons modos,
perguntando por ela.
Disse que eram amigos
do tempo em que a mãe
morava em outra vizinhança.
A menina,
filha única,
que morava só com a mãe
e nunca via direito o pai,
preferiu não contar
da visita que aparecera.
Já com tão pouco,
pensou ela,
e ainda ter que dividir
com gente estranha.
Pousou então os olhos na mãe,
satisfeita de tê-la só para si.
Sérgio Medeiros
mas apareceu um moço,
querendo aparentar bons modos,
perguntando por ela.
Disse que eram amigos
do tempo em que a mãe
morava em outra vizinhança.
A menina,
filha única,
que morava só com a mãe
e nunca via direito o pai,
preferiu não contar
da visita que aparecera.
Já com tão pouco,
pensou ela,
e ainda ter que dividir
com gente estranha.
Pousou então os olhos na mãe,
satisfeita de tê-la só para si.
Sérgio Medeiros
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Sobre o que às vezes fica do amor
Às vezes do amor
fica só a conveniência
e umas tantas relações
já bem estabelecidas.
Fica uma sogra pra visitar,
um amante para gozar
e muito pouco
do que levou até ali.
Às vezes fica só
um filho pra se criar,
uma casa para dividir
e algumas panelas velhas.
Ficam retratos coloridos
lembrando de alguém
que foi tão próximo
e hoje é quase estranho.
Sérgio Medeiros
fica só a conveniência
e umas tantas relações
já bem estabelecidas.
Fica uma sogra pra visitar,
um amante para gozar
e muito pouco
do que levou até ali.
Às vezes fica só
um filho pra se criar,
uma casa para dividir
e algumas panelas velhas.
Ficam retratos coloridos
lembrando de alguém
que foi tão próximo
e hoje é quase estranho.
Sérgio Medeiros
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