terça-feira, 8 de novembro de 2011

Romance

Há prédios cheios
de pessoas sozinhas
e pouco espaço
para novos solitários.

Autoridades públicas,
preocupadas com a questão,
discursaram sobre a falta de romances.

O governo estuda
distribuir entradas pro cinema.

Todas as drogas do amor
devem ser liberadas
e não haverá impostos
sobre o envio de flores.

Será que Alice
gosta de orquídeas
ou prefere margaridas?

Sérgio Q Medeiros

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Dia tranquilo

Após um dia tranquilo
ela voltou para casa.

Em silêncio
aqueceu a comida
e teve o jantar.

A sós
ela lavou a louça,
folheou livros,
ligou para a mãe
e limpou os dentes.

Antes de ir pra cama
murmurou orações.

Nas suas preces
agradeceu e pediu
um outro dia tranquilo.

Sérgio Q Medeiros

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Espetáculo

O vento
afaga a areia
da praia deserta.

Com o início da chuva
todos os homens
foram embora.

O mar,
agora um artista solitário,
parece arrebentar mais forte.

Suas ondas,
como a mostrar
que não são movidas
por trajes de banho coloridos,
buscam com redobrada ânsia
o impacto com as rochas.

Após cada encontro,
uma branca espuma
cobre e descobre
o negrume da rocha.

Não há intervalo.

O espetáculo
não pode parar.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Poema forte

Este é um poema forte,
que não pega resfriado.

Este é um poema operário,
que acorda cedo,
martela versos
e não falta ao trabalho
sem justa causa.

Este é um poema sofredor,
que crê em realizações
um pouco improváveis.

Este será um poema de amor?
São já várias linhas
sem ganhar beijo ou afago,
mas ainda é tempo
de aparecer uma mocinha.

Sérgio Q Medeiros

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Noite de sono

Levanto,
urino
e torno a dormir.

Regresso
a uma noite
sem sonhos.

Algumas
preocupações mesquinhas
atrapalham meu sono,
mas não o colorem.

Não há cores,
não há fêmeas bonitas,
não há fracasso ou glória
no meu sono.

O meu sono é apenas
esquecimento
e cansaço.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Velho retrato

Me sinto
um velho retrato.

Uma reminiscência
de coisa querida,
que guardam sem saber por quê.

Sou uma lembrança
de outras guerras
e de outros esquadrões.

Meus antigos companheiros
hoje são rubros
e possuem cores vibrantes.

Eu sou um velho retrato
que descolore e se enternece
ao nos relembrar em tons de sépia.

Sérgio Q Medeiros

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Papelaria

Na papelaria
namoramos
as grandes coleções
de lápis coloridos.

Que belas coleções
de lápis de cor!

Mas para colorir
os meus desenhos
não preciso de todos
os lápis coloridos.

Bastam-me duas
ou três cores
e eu te pinto
por inteiro.

Sérgio Q Medeiros