quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Noite de sono

Levanto,
urino
e torno a dormir.

Regresso
a uma noite
sem sonhos.

Algumas
preocupações mesquinhas
atrapalham meu sono,
mas não o colorem.

Não há cores,
não há fêmeas bonitas,
não há fracasso ou glória
no meu sono.

O meu sono é apenas
esquecimento
e cansaço.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Velho retrato

Me sinto
um velho retrato.

Uma reminiscência
de coisa querida,
que guardam sem saber por quê.

Sou uma lembrança
de outras guerras
e de outros esquadrões.

Meus antigos companheiros
hoje são rubros
e possuem cores vibrantes.

Eu sou um velho retrato
que descolore e se enternece
ao nos relembrar em tons de sépia.

Sérgio Q Medeiros

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Papelaria

Na papelaria
namoramos
as grandes coleções
de lápis coloridos.

Que belas coleções
de lápis de cor!

Mas para colorir
os meus desenhos
não preciso de todos
os lápis coloridos.

Bastam-me duas
ou três cores
e eu te pinto
por inteiro.

Sérgio Q Medeiros

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Um recado da saudade

Há vários dias
que chove.

Chove um pouco,
chove forte,
chove...

A minha vizinha
saiu sem o guarda-chuva
e voltou molhada pra casa.

Para a minha vizinha
essa água que cai do céu
é apenas mais uma preocupação.

Perdi meu guarda-chuva
e enquanto a chuva não passa
eu olho os pingos da janela.

Da minha janela
essa chuva, que não passa,
é um recado da saudade.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Rebuliço

Mestre Pedro
era um homem manso,
um homem de sua casa
e de sua família.

Quando Maneco Barros,
sujeito casado,
foi mexer com a filha do mestre
não pensou que ia dar naquilo.

Num rebuliço,
o mestre
passou Maneco Barros
na ponta da faca.

Tudo isso porque
a irmã de Laurentino,
antiga amante de Maneco,
foi dar conta do romance.

O enterro de Maneco sai hoje
com três viúvas.

Sérgio Q Medeiros

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O fim azul

O mar
começa cinza,
torna-se verde
e se perde azul.

O mar
termina azul.

A minha vizinha
gostava de rosa,
ficou doente
e apodreceu.

Mas ainda resta o consolo
da companhia
de vermes azuis.

Sérgio Q Medeiros

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Poucas palavras

Alguns casais
fazem um tímido
uso das palavras.

Seus almoços exigem
cinco ou seis delas,
a sobremesa mais uma,
e outras três são necessárias
para a sopa no jantar.

Com o tempo
inventaram formas eficientes
de se comunicarem.

Uma piscadela para o sal,
uma leve tosse para o purê de batatas,
e um discreto toque da mão direita
na orelha esquerda
para indicar um novo amante.

Sérgio Q Medeiros