sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Perto do Chão

Eu fico
perto do chão,
das coisas
que posso tocar.

Às vezes fujo
pra uma montanha alta,
tenho frio e solidão.
Gosto de montanhas altas,
mas prefiro voltar pro chão,
pras coisas que posso tocar.

Há dias que vôo,
que tenho um bom vôo.
Mas não fico no ar,
me quedo perto do chão,
das coisas que posso tocar.

Às vezes eu pego cometas,
gosto de ir passear...
Mas volto sempre pro chão,
pras coisas que posso tocar.

Sérgio Medeiros

domingo, 23 de janeiro de 2011

Sobre pequenos fatos e impressões

As folhas estão no chão
e os cartazes na parede.

Pensões baratas anunciam
vagas para moças e rapazes.

Carolina não me liga
já há duas sextas-feiras.

As garrafas pela praia
eram alegres de cerveja.

Mas pra onde foram os corpos
que repousavam na areia?

Ah, mas se houvesse mais estrelas
nem carecia dessa lua ser tão cheia.

Sérgio Medeiros

domingo, 9 de janeiro de 2011

Um Incerto Outro Lugar

Faça-se então
um exílio voluntário,
para longe desse povo,
para um incerto outro lugar.

Faça-se então
uma serena partida,
para longe desse povo
que é feio e sem graça.

Como posso eu, bom moço,
que sou bonito e visto azul,
ficar junto desse povo
que nem esboça a sua cor?

Saio e levo comigo
todos os lápis coloridos
para pintar palavras tristes
em cartas feitas de saudade.

Sérgio Medeiros

domingo, 28 de novembro de 2010

Sempre tive esta saudade

Sempre tive esta saudade
das coisas não vividas
que a chuva parece trazer de volta.

Saudade de onde não estive,
do que não participei,
das palavras que não disse
e dos beijos que não dei.

Sempre tive esta saudade,
de tudo que não era eu.

Sérgio Medeiros

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Três trens tristes

Um trem,
dois trens,
três trens tristes,
sem trilhos pra passear.

Três trens tristes
saudosos de ir e voltar,
sempre para o mesmo lugar.

Sérgio Medeiros

domingo, 17 de outubro de 2010

O homem e o medo

Um cigarro,
na calçada,
queima lentamente.

O homem,
perto do cigarro,
não fuma,
mas tem medo.

Numa tarde,
voltando da padaria,
ao atravessar a rua,
o homem sentiu medo.

O homem sentiu medo
de seguir com o pão adiante,
de olhar os outros homens,
de beijar a sua mulher.

O medo,
antes da noite chegar,
às três e meia da tarde,
tornou-se parte daquele homem.

Um homem
que já não bate na mulher,
não leva a filha à escola,
nem corta seu próprio pão.

Um homem
que apenas se arrasta,
e é um escravo livre
do seu próprio medo.

Sérgio Medeiros

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Cria

A mãe
criou a filha,
que virou mulher da vida
e lhe deixou um neto pra criar.

O neto,
que saiu quieto e ensimesmado,
era a companhia da avó
para a missa e os passeios de domingo.

A avó,
que andava preocupada
com o namoro do neto,
agora dorme mais tranquila.

Gracinha, a namorada,
vendo que não tinha jeito,
deixou a velha morar junto
quando eles se casarem.

Sérgio Medeiros