quinta-feira, 15 de julho de 2010

Cria

A mãe
criou a filha,
que virou mulher da vida
e lhe deixou um neto pra criar.

O neto,
que saiu quieto e ensimesmado,
era a companhia da avó
para a missa e os passeios de domingo.

A avó,
que andava preocupada
com o namoro do neto,
agora dorme mais tranquila.

Gracinha, a namorada,
vendo que não tinha jeito,
deixou a velha morar junto
quando eles se casarem.

Sérgio Medeiros

terça-feira, 6 de julho de 2010

Onde nascem as palavras

As minhas palavras
se escondem
no começo da linha.

Quando arrisco
um verso longo,
nas últimas palavras
há um certo tremor.

Coração mole que sou,
me comovo com as palavras,
que receiam atravessar
a metade da linha.

Trago-as então
pro começo da linha,
pra onde nascem
as palavras.

Gosto de começar versos,
que talvez sejam
o começo de mim mesmo.

Sérgio Medeiros

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Passarinho Triste

Fale baixinho
e fique perto de mim,
me dando leves abraços,

dizendo coisas comuns,
do tempo, do seu cabelo preto.

Não se canse do
meu silêncio,
e aceite os
gestos que não faço.

Você me olha e sorri:
sou um passarinho triste
que não sabe cantar.

Sérgio Medeiros

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Falta açúcar na TV

Falta açúcar na TV
e um pouco de você.

Falta mola no colchão,
farinha pra fazer pão
e fôlego pra encher balão.

Falta noite no meu dia,
uma brisa ou ventania
e um pouco de companhia.

Falta amarelo no sol,
uma mancha no lençol,
um navio para o farol.

Falta a mariposa virar borboleta.
Falta uma música e um par.
Falta alguém para dançar
um solo de clarineta.

Sérgio Medeiros

terça-feira, 20 de abril de 2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A chuva e a sopa de cebola

É terrível
quando chove
e não se pode ir ao mercado
comprar cebolas.

A chuva,
que escorre do céu
e descansa sobre os bueiros entupidos,
molhou os sapatos dos homens,
cancelou passeios de bicicleta
e criou pequenas ilhas e córregos.

A chuva,
agora quase garoa,
fechou as portas das lojas,
cessou o movimento dos carros
e me impediu de ir ao mercado.

A minha sopa,
inicialmente de cebola,
será mesmo de batata.

Sérgio Medeiros

quarta-feira, 31 de março de 2010

Vizinha nova

Chegou uma vizinha nova,
que é o assunto nas calçadas.

Essa não vai ser como a Zezé,
que fez jogo duro quando mudou.

Até o Osvaldo confessar
que comia a neguinha
nos fundos da mercearia,
ninguém tinha muita esperança.

Mas a Zezé, durona,
só queria dar pra ele.

Acabou indo embora
quando o Osvaldo enjoou dela.

Com essa nova,
vai ser diferente!

Ela é até melhor que a Zezé...
Uma boa bunda e uns bons dentes.

Sérgio Medeiros