quarta-feira, 24 de julho de 2013

Distante

O vento levou um homem
a uma terra distante
e o esqueceu lá.

Os amigos, aflitos,
procuraram o homem
até o final da rua
e nunca o encontraram.

O homem,
esquecido pela brisa,
distante resolveu ficar.

Na terra nova
não foi triste
nem contente.

Casou com Madalena,
que lembrava Rosinha,
sua antiga companheira.

Morreu num dia
de vento forte,
quando saía de casa.

Quem sabe para comprar pão,
quem sabe para retornar.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 25 de junho de 2013

Areia Branca

Já não há ruas
para homenagear os mortos.

As placas lembram somente
de coisas
de há muito tempo.

No passado, parece,
havia muitos generais.

Alguns receberam avenidas largas,
os outros, por certo,
não venceram muitas batalhas.

Agora vão mudar
os nomes das praias.

A praia de Areia Branca
será José Pinto Silveira.

Areia Branca será
pura memória.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 4 de junho de 2013

25 de março

Um dia,
quando já não lembrava de mim,
fiz um poema pra minha avó.

Minha avó nunca leu o poema,
não conhecia as letras.

A vida não estava nos livros,
nem nos planos econômicos.

Quando faltou dinheiro
pra completar a feira,
minha avó foi ao quarto e trouxe
notas cheias de zeros
e com nenhum valor.

A vida era fazer doces,
cuidar das galinhas
e costurar uma roupa nova
para o liquidificador.

A vida, no fim,
era um desejo
de voltar pra casa do pai.

Hoje ela voltou.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 30 de abril de 2013

Estação

Escuto o trem apitar,
mas não é hoje
que parte o meu.

Recupero o passo
e permaneço
a fazer o mesmo.

Acordo às sete
e respeito o horário
das refeições.

Escolho com esmero
a cor da roupa
das reuniões.

Todos os dias
faço ótimos contatos.

Depois do jantar
recolho papéis.

Entre cartões de visita
nunca encontro
o bilhete do trem
que não comprei.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 12 de março de 2013

Guardados

Guardo comigo a tristeza
e os meus melhores poemas.

O restante
é de domínio público,
está exposto em sorrisos
e livros não folheados.

A página oitenta e um
diz muito sobre mim.

Verifique se pode encontrá-la
junto ao seu distribuidor local.

Em todo caso, escreva-me.

Há palavras que eu ainda
só consigo dizer por carta.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Minha mulher

Eu não sou
minha mulher!

Minha mulher?

Era uma loira bonita
que não me queria tanto,
mas depois que meti fundo
ela se afeiçoou.

Pena que aqueles filhos
acabaram com ela.

Porra, deixa eu
voltar pro assunto:
eu não sou
a minha mulher.

Prefiro
o churrasco ao ponto.

Agora
assa mais um pouquinho
pra eu poder
levar pra ela.

Sérgio Q Medeiros

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Baú

De Mossoró
até Pau dos Ferros
eram três horas de ônibus,
com parada em Apodi.

A família cabia
em quatro cadeiras.

Uma para meu pai,
outra pra minha mãe,
e duas para mim
e minhas irmãs.

Em Pau dos Ferros
tocavam sucessos
de anos atrás.

O tempo parecia
chegar atrasado ali.

A cidade,
com suas casas de fachada antiga
e seus homens de chapéu,
era um pequeno livro empoeirado.

Daí, acho,
vem o meu gosto
de visitar sebos.

Sérgio Q Medeiros