terça-feira, 23 de agosto de 2011

Rebuliço

Mestre Pedro
era um homem manso,
um homem de sua casa
e de sua família.

Quando Maneco Barros,
sujeito casado,
foi mexer com a filha do mestre
não pensou que ia dar naquilo.

Num rebuliço,
o mestre
passou Maneco Barros
na ponta da faca.

Tudo isso porque
a irmã de Laurentino,
antiga amante de Maneco,
foi dar conta do romance.

O enterro de Maneco sai hoje
com três viúvas.

Sérgio Q Medeiros

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O fim azul

O mar
começa cinza,
torna-se verde
e se perde azul.

O mar
termina azul.

A minha vizinha
gostava de rosa,
ficou doente
e apodreceu.

Mas ainda resta o consolo
da companhia
de vermes azuis.

Sérgio Q Medeiros

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Poucas palavras

Alguns casais
fazem um tímido
uso das palavras.

Seus almoços exigem
cinco ou seis delas,
a sobremesa mais uma,
e outras três são necessárias
para a sopa no jantar.

Com o tempo
inventaram formas eficientes
de se comunicarem.

Uma piscadela para o sal,
uma leve tosse para o purê de batatas,
e um discreto toque da mão direita
na orelha esquerda
para indicar um novo amante.

Sérgio Q Medeiros

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Minha chuva azul

Os meus versos
formam nuvens
que chovem azul.

Meus versos,
minhas nuvens,
minha chuva azul...

Eu chovo
uma chuva azul.

Pouco importa
se é uma chuva serena
ou se é torrente.

Importa é chover
pro azul ficar contente.

Sérgio Q Medeiros

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Cotidiano

Os dias
se repetem
e os ponteiros
marcam sempre
o mesmo lugar.

Em casa,
às sete,
tomo banho,
bebo café,
calço os sapatos
e vou pro trabalho.

No trabalho,
às dez
espero onze,
às onze
espero doze,
e às doze
saio pro almoço.

Volto ao trabalho
e espero a hora
de ir pra casa.

À noite,
em casa,
eu leio livros
que falam de outros lugares
mas não explicam
como chegar lá.

Deito quando os ponteiros
estão quase juntos,
e durmo sem vontade
de acordar.

Sérgio Q Medeiros

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O baile

Com o princípio da chuva
as pessoas procuram abrigo
e se descobrem juntas.

Algumas pessoas,
como velhas companheiras,
permanecem próximas
sem fazer uso das palavras.

Outras revelam a admiração
de um primeiro encontro.
Conversam sobre o tempo,
sobre filmes e, quem sabe,
um cinema no fim de semana.

Mas de repente, tal qual
a orquestra de um baile,
a chuva para e separa casais
que foram quase eternos.

Sérgio Q Medeiros

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Beleza

Com cada filho
deixou um pouco da beleza
e já não era
a moça bonita que fora.

Melhor deixar
a beleza pros filhos
do que desperdiçá-la
junto aos homens.

Homens que iam deixá-la
quando perdesse a beleza.

Não investia em homem,
não valia a pena.
Melhor deixar a beleza
pra quem não deixa a gente.

Sérgio Q Medeiros