terça-feira, 4 de junho de 2013

25 de março

Um dia,
quando já não lembrava de mim,
fiz um poema pra minha avó.

Minha avó nunca leu o poema,
não conhecia as letras.

A vida não estava nos livros,
nem nos planos econômicos.

Quando faltou dinheiro
pra completar a feira,
minha avó foi ao quarto e trouxe
notas cheias de zeros
e com nenhum valor.

A vida era fazer doces,
cuidar das galinhas
e costurar uma roupa nova
para o liquidificador.

A vida, no fim,
era um desejo
de voltar pra casa do pai.

Hoje ela voltou.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 30 de abril de 2013

Estação

Escuto o trem apitar,
mas não é hoje
que parte o meu.

Recupero o passo
e permaneço
a fazer o mesmo.

Acordo às sete
e respeito o horário
das refeições.

Escolho com esmero
a cor da roupa
das reuniões.

Todos os dias
faço ótimos contatos.

Depois do jantar
recolho papéis.

Entre cartões de visita
nunca encontro
o bilhete do trem
que não comprei.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 12 de março de 2013

Guardados

Guardo comigo a tristeza
e os meus melhores poemas.

O restante
é de domínio público,
está exposto em sorrisos
e livros não folheados.

A página oitenta e um
diz muito sobre mim.

Verifique se pode encontrá-la
junto ao seu distribuidor local.

Em todo caso, escreva-me.

Há palavras que eu ainda
só consigo dizer por carta.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Minha mulher

Eu não sou
minha mulher!

Minha mulher?

Era uma loira bonita
que não me queria tanto,
mas depois que meti fundo
ela se afeiçoou.

Pena que aqueles filhos
acabaram com ela.

Porra, deixa eu
voltar pro assunto:
eu não sou
a minha mulher.

Prefiro
o churrasco ao ponto.

Agora
assa mais um pouquinho
pra eu poder
levar pra ela.

Sérgio Q Medeiros

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Baú

De Mossoró
até Pau dos Ferros
eram três horas de ônibus,
com parada em Apodi.

A família cabia
em quatro cadeiras.

Uma para meu pai,
outra pra minha mãe,
e duas para mim
e minhas irmãs.

Em Pau dos Ferros
tocavam sucessos
de anos atrás.

O tempo parecia
chegar atrasado ali.

A cidade,
com suas casas de fachada antiga
e seus homens de chapéu,
era um pequeno livro empoeirado.

Daí, acho,
vem o meu gosto
de visitar sebos.

Sérgio Q Medeiros

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O Haiti

Faço qualquer
trabalho braçal,
diz o cartaz
nas mãos do homem negro.

Seus olhos
parecem abarcar
cada carro
parado no sinal.

Nenhum carro
teria um jardim
para cuidar?

Pedra pra limpar?
Merda pra passar?
Fome pra carregar?

As luzes mudam,
os carros mudam.
Permanecem o homem negro
e seu cartaz.

Após tantos carros,
os olhos do homem temem
que a sua grande viagem
tenha levado ao mesmo lugar.

Sérgio Q Medeiros

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Dois rios

As terras separam
as águas do rio.

Dois novos rios
se formam à direita
e à esquerda das terras.

Duas águas
que nunca mais
vão se encontrar.

Sérgio Q Medeiros