terça-feira, 28 de agosto de 2012

Visita a estranhos

Sigo para rever
desconhecidos.

Me junto a estranhos
e conversamos
sobre fotos amarelas
que carregam nossos nomes.

Algumas fotos, dizem,
já deixaram
de contar novas histórias.

As que restaram
como teimam em lembrar
álbuns de antigamente.

Uma nova foto
exige que nos aproximemos
para um bom enquadramento.

Quando retorno,
sinto saudade
de estar junto
a esses estranhos.


Sérgio Q Medeiros

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Herança

A velha Tetê
passa o dia na rede.

Quando está em casa,
a filha escuta
a tosse da velha
atrapalhar a TV.

Agora são só uns meses
para a velha
ir pra casa do irmão.

Serão dois anos
de novela sem tosse.

Será o tempo
de armar a rede da velha
na casa do irmão.

Sérgio Q Medeiros

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Poesia

Muitos homens
nunca lerão um poema.

São homens
que bebem café,
tomam banho de rio,
tem filhos e um cachorro.

Poucos homens
conhecerão meus versos.

E o que direi a esses homens
nos meus versos?

Que também bebo café?
Que tenho saudade de casa?
Que há noites em que fico sem dormir?

Quem sabe ao invés de poemas,
talvez melhor seja
telefonar a cada um desses homens.

Há algo na poesia
que não se pode contar?

Aguardo respostas
para ajudar a rimar.

Sérgio Q Medeiros

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Incertezas

Guardo comigo
a triste certeza
de que pouco vou mudar.

É inútil ler livros,
ver filmes, ter filhos
ou me apaixonar de novo.

É inútil outra cerveja,
outra ida ao trabalho,
outra vida tão ligeira.

É inútil qualquer certeza.


Sérgio Q Medeiros

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Lançamento

Na próxima terça-feira (26/06), a partir das 18h, será
o lançamento de Poemas para ler na chuva, no espaço
da editora Multifoco, na Av. Mem de Sá, 126, na Lapa:
www.editoramultifoco.com.br/espaco-livraria.php

Enquanto não chega o dia, gostaria de compartilhar com vocês
o texto gentilmente escrito por Ana Beatriz para a orelha do livro:

“Poemas para ler na chuva” é o segundo livro de Sérgio Medeiros e assim como “Um Lugar Azul” traz ao público o universo particular da poética do autor. Nesse universo figuram pequenas narrativas de homens comuns, homens divididos entre o peso e a leveza (insustentável) de suas memórias, homens com saudade de casa.

Cada poema acontece como uma cidade (do) interior, com sua singular e delicada tessitura de tempo. Um tempo de praças, bailes, missas de domingo e namoro no portão. No entanto, não se trata de uma geografia afastada das grandes metrópoles. Trata-se de uma geografia interior dos habitantes de uma capital qualquer, tentando lidar com o tédio, a solidão e os destinos previsíveis de novela.

A chuva, paisagem constante dos versos deste livro, aparece como o tempo que irrompe o fluxo programado da grande cidade. Um pequeno milagre que faz e desfaz romances “quase eternos” sob a marquise, que traz a lembrança de uma terra natal, que revela saudades e fantasmas na sacada. A chuva é o contra-fluxo, motor de uma antiga clepsidra, medindo um tempo íntimo.

É desse processo de encantar-se e desencantar-se, na fronteira de duas ou muitas cidades, que se constrói “Poemas para ler na chuva”. Uma coleção de refúgios e abrigos para épocas de pressa.

Ana Beatriz Rangel

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Poemas para ler na chuva





Gostaria de convidar a todos para o lançamento de um livro chuvoso.

O lançamento será dia 26 de junho, das 18h às 21h, no espaço da editora Multifoco, na Av. Mem de Sá, 126, Lapa, Rio de Janeiro:
www.editoramultifoco.com.br/espaco-livraria.php

terça-feira, 8 de maio de 2012

Batata-doce e jerimum

Seu Cícero plantava
na vazante do meu avô.

Isso faz muitos anos.

Depois meu avô
vendeu a propriedade
e seu Cícero a deixou.

Mesmo sem plantar nas terras
seu Cícero manteve a amizade
até a morte do meu avô
e quando o visitava trazia
batata-doce e jerimum.

Seu Cícero gostava de cachaça,
mas meu avô não bebia
e dificilmente tinha
cachaça para oferecer.

Seu Cícero não se importava
e oferecia batata-doce e jerimum
como se tivessem sido
plantados há muitos anos
nas terras do meu avô.

Sérgio Q Medeiros