terça-feira, 15 de outubro de 2013

Um novo verso

Escrevi um verso
que agora faz
parte de mim.

Um verso tão próximo
veio espantar a loucura
e dissipar os medos
que são quase eu mesmo.

Escreverei outro
ou repetirei palavras
disponíveis em tabelas
de senos e cossenos?

Enquanto aguardo
um novo verso
afasto fantasmas
com gotas de álcool
e retratos de mulheres.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Sábado

Eu era sábado
e chovia no fim da tarde.

A embalagem dizia:
leve cem e pague oitenta.

Eu pagaria duzentos
pra me levar a outro lugar.

Uma cerveja é o preço
pra ser cúmplice dos homens.

Um velho barco
atravessa o rio de novo.

Em Juazeiro
também há barcos assim.

Encho o copo.

Da varanda do mercado
quantas vezes vou ver
esse barco passar?

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Outono

O outono oferece
as folhas do pé de manga.

O chão
fica cheio delas
e a minha tia
varre e reclama.

Vi na TV
que no Japão
o outono oferece
flores de cerejeira.

Umas flores tão bonitas
que nem dá vontade
de varrer.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Passeio ao reino da seca

Disponho os meus ossos
junto à janela
para passear.

Da janela avisto
uma casa vermelha,
vazia.

Ao lado da casa,
dormem os ossos de um boi.

(Após o sol secar a carne,
ninguém cobriu de terra
os ossos do boi.)

O passeio prossegue
e a casa vermelha
some da minha janela.

Me seguem somente
a terra seca
e os galhos cinzas.

Meus ossos, fartos,
perguntam quando o passeio
será interrompido.

Logo, eu respondo.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Distante

O vento levou um homem
a uma terra distante
e o esqueceu lá.

Os amigos, aflitos,
procuraram o homem
até o final da rua
e nunca o encontraram.

O homem,
esquecido pela brisa,
distante resolveu ficar.

Na terra nova
não foi triste
nem contente.

Casou com Madalena,
que lembrava Rosinha,
sua antiga companheira.

Morreu num dia
de vento forte,
quando saía de casa.

Quem sabe para comprar pão,
quem sabe para retornar.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 25 de junho de 2013

Areia Branca

Já não há ruas
para homenagear os mortos.

As placas lembram somente
de coisas
de há muito tempo.

No passado, parece,
havia muitos generais.

Alguns receberam avenidas largas,
os outros, por certo,
não venceram muitas batalhas.

Agora vão mudar
os nomes das praias.

A praia de Areia Branca
será José Pinto Silveira.

Areia Branca será
pura memória.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 4 de junho de 2013

25 de março

Um dia,
quando já não lembrava de mim,
fiz um poema pra minha avó.

Minha avó nunca leu o poema,
não conhecia as letras.

A vida não estava nos livros,
nem nos planos econômicos.

Quando faltou dinheiro
pra completar a feira,
minha avó foi ao quarto e trouxe
notas cheias de zeros
e com nenhum valor.

A vida era fazer doces,
cuidar das galinhas
e costurar uma roupa nova
para o liquidificador.

A vida, no fim,
era um desejo
de voltar pra casa do pai.

Hoje ela voltou.

Sérgio Q Medeiros