quarta-feira, 7 de março de 2012

Casulo

Escrevo palavras
para me esconder.

Procuro abrigo
nos meus versos.

Construo um casulo
com as mais belas letras
e nele dorme agora
uma triste borboleta.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sobre livros e seus marcadores

Na estante há tantos livros
marcados melancolicamente
na página quarenta e sete.

Tantos livros inacabados
parecem indicar um homem ansioso,
que amiúde se enfeita de planos
e um pouco os realiza.

Quem sabe esse homem ansioso
encontre os livros apenas em dias chuvosos
e por conta da escassa chuva
os marcadores se movam tão pouco.

Mas enquanto há chuva
escuta-se o farfalhar das páginas
e o homem ansioso imagina
que está a folhear a si mesmo.

Sérgio Q Medeiros

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Feliz ano novo

Agarro
substantivos abstratos
para de mãos dadas
rompermos o ano novo.

Com eles
fabrico frases
em um futuro
mais que perfeito.

Recrudesce
a minha fé.

Proponho um brinde
à mais alva manhã
e esvazio a taça
certo de que ela
nunca chegará.


Sérgio Q Medeiros

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sobre o tempo

Ao escutar o badalar
do sino no alto da torre,
os homens, mecanicamente,
ajustam os relógios.

O tempo, tão contido nos relógios,
controla quando cabe aos homens comer
e quando devem jejuar.

Após uma certa quantidade de tempo,
urge que os homens se enfeitem
e reúnam outros homens pra comemorar.

Em toda parte os homens aguardam
o tempo de fazer poesia,
o tempo de rimar versos
e de os rasgar.

O tempo diz aos homens
quando esconder suas marcas no rosto
e quando já não importa mais.

O tempo não se importa com os homens.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Pequenas Memórias

Ao estourar
de um grão de milho,
eu me vejo pequenino.

Numa noite de domingo
eu, menino,
vou à missa com a família.

Na nossa igreja
não há missa
sem pipoca.

O pipoqueiro
é negro como o padre.

Durante o sermão
o pipoqueiro silencia,
ninguém escuta a sua voz.

Ouve-se apenas
o estourar do milho,
como uma queima de fogos
para Nosso Senhor.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Adormecer

Uso álcool
para o sono chegar.

Já não confio
nos programas da TV.

Reprises de novela,
filmes iranianos,
debates futebolísticos...
Nada me faz desacordar.

Por que não busco
algum amigo?

É tarde
para reunir amigos
e há tanto álcool de prontidão.

Eu uso álcool
pro sono chegar.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Romance

Há prédios cheios
de pessoas sozinhas
e pouco espaço
para novos solitários.

Autoridades públicas,
preocupadas com a questão,
discursaram sobre a falta de romances.

O governo estuda
distribuir entradas pro cinema.

Todas as drogas do amor
devem ser liberadas
e não haverá impostos
sobre o envio de flores.

Será que Alice
gosta de orquídeas
ou prefere margaridas?

Sérgio Q Medeiros