terça-feira, 8 de maio de 2012

Batata-doce e jerimum

Seu Cícero plantava
na vazante do meu avô.

Isso faz muitos anos.

Depois meu avô
vendeu a propriedade
e seu Cícero a deixou.

Mesmo sem plantar nas terras
seu Cícero manteve a amizade
até a morte do meu avô
e quando o visitava trazia
batata-doce e jerimum.

Seu Cícero gostava de cachaça,
mas meu avô não bebia
e dificilmente tinha
cachaça para oferecer.

Seu Cícero não se importava
e oferecia batata-doce e jerimum
como se tivessem sido
plantados há muitos anos
nas terras do meu avô.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 24 de abril de 2012

Preciso escrever versos

Como tirar poemas do peito?

Preciso extrair versos
enquanto o peito ainda bate.

Não há notícias de máquinas
que recuperam rimas
de um coração morto.

Preciso escrever versos!

São tantas palpitações perdidas
em um dia sem versos,
e cada palpitação
me aproxima do fim.

Preciso escrever versos,
preciso expurgar os poemas do peito.

Sérgio Q Medeiros

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Viagem de avião

O aeroporto é frio
e o preço do café
está nas nuvens.

A moça da companhia aérea
veste um bonito uniforme,
pena que deixou o gato
desfiar a meia calça.

Os passageiros formam
duas filas para embarcar:
à esquerda todos os que roem as unhas
e à direita os que tem medo de avião.

A aeromoça
cochila durante o voo
(espero que o piloto
tenha dormido bem).

O comandante
anuncia que em breve
sua filha vai casar.

Todos os passageiros
entre as fileiras quinze e vinte e dois
cumprimentam o comandante.

Após alguns avisos
sobre o traje apropriado
para o casamento
pousamos em um destino.

Desembarco e levo
os meus pertences
para o próximo avião.

Sérgio Q Medeiros

quarta-feira, 21 de março de 2012

Ritmo dissoluto

Me enfeito
quando é carnaval.

Vou a bailes,
conheço máscaras
e pouco durmo.

Toco bocas
tão ansiosas
quanto a minha.

Muito pouco
tenho guardado
dessas bocas.

Nesses dias,
minha mulher
fica com um jeito
triste nos olhos,
mas permanece comigo.

Joana compreende
que o carnaval
logo passará.

Sérgio Q Medeiros

quarta-feira, 7 de março de 2012

Casulo

Escrevo palavras
para me esconder.

Procuro abrigo
nos meus versos.

Construo um casulo
com as mais belas letras
e nele dorme agora
uma triste borboleta.

Sérgio Q Medeiros

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sobre livros e seus marcadores

Na estante há tantos livros
marcados melancolicamente
na página quarenta e sete.

Tantos livros inacabados
parecem indicar um homem ansioso,
que amiúde se enfeita de planos
e um pouco os realiza.

Quem sabe esse homem ansioso
encontre os livros apenas em dias chuvosos
e por conta da escassa chuva
os marcadores se movam tão pouco.

Mas enquanto há chuva
escuta-se o farfalhar das páginas
e o homem ansioso imagina
que está a folhear a si mesmo.

Sérgio Q Medeiros

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Feliz ano novo

Agarro
substantivos abstratos
para de mãos dadas
rompermos o ano novo.

Com eles
fabrico frases
em um futuro
mais que perfeito.

Recrudesce
a minha fé.

Proponho um brinde
à mais alva manhã
e esvazio a taça
certo de que ela
nunca chegará.


Sérgio Q Medeiros